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    Jatir Delazeri

Caminho percorrido por um Gaudério
Por: JATIR DELAZERI.

publicado no ano de 2000!

Parte 1 - Nasce um gaudério.(01-Jul-2000) Parte 7 - Coração do gaudério é flechado por uma chinoca.(01-Out-2000)
Parte 2 - O piá é desmamado.(15-Jul-2000) Parte 8 - Frustração e desespero do gaudério.(15-Out-2000)
Parte 3 - Em Relvado é civilizado.(01-Ago-2000) Parte 9 - Frustrado, deixa o pampa gaúcho.(01-Nov-2000)
Parte 4 - Desperta o amor por uma chinoca.(15-Ago-2000) Parte 10 - Frustração do gaudério na terra do tio Sam.(15-Nov-2000)
Parte 5 - O gaudério é enviado a uma cavalaria em Bagé.(01-Set-2000) Parte 11 - Flecha do gaudério atinge coração desocupado em Porto Alegre.(01-Dez-2000)
Parte 6 - Vai tentar a vida na capital.(15-Set-2000) Parte 12 - (final) - Com saudades, o gaudério funda o primeiro CTG fora do Brasil.(15-Dez-2000)

 
Nasce um Gaudério.

      Por Jatir Delazeri.

            Por volta de 1948, nos topos dos morros de Pouso Novo, um gaudério viu  nascer o sol pela primeira vez.  Começava o verão e nas primeiras horas da madrugada de uma noite enluarada , um piá abriu um berreiro. Vindo de um parto normal, auxiliado por uma parteira, e num rancho iluminado por candeeiros a querosene. Lá fora reinava um silencio infinito e o céu estava bordado de estrelas. A lua estava cheia e brilhante, até parecendo que veio para iluminar o caminho que a parteira tinha de passar.

            Por entremeio das frestas das taboas, a lua espiava para dentro do rancho , parecia que queria ver a cara do piá. Depois de terminado o serviço, a parteira deixou o rancho. Assim que o piá parou de berrar, ele sentiu fome e  foi à procura da  teta da patroa do rancho para dar sua primeira mamada. Logo nos primeiros dia de vida , o piá começou a sentir a fúria  da natureza que existia no topo daqueles morros e que aos poucos ele deveria se acostumar.  Era início do mês de Janeiro, o calor era intenso.  Os poucos animais que o patrão possuía, estavam debaixo de algumas  árvores  ao redor do rancho. Os animais sentiam o intenso calor , e ficavam parados nas sombras das árvores, sacudindo o rabo para afastar as mutucas que tentavam tirar-lhes o sangue.  

            O patrão do rancho só tinha um cavalo, que servia como meio de transporte e que também carregava produtos da roça para o rancho. Tinha uma vaca que fornecia o leite e o queijo para o gasto do rancho e também, dois bois usados para lavrar a terra descômoda e cheia de posterno, e  para arrastar lenha do mato para o rancho, que era usada para fazer fogo na chapa e no forno, onde a patroa cozinhava o pão e a batata doce. Junto ao rancho, na parte de trás havia um puxado que servia de abrigo para os animais nos dias frios do inverno.  Neste dia de intenso calor, logo após o meio dia, o tempo começou a se armar e logo em seguida começou a soprar um vento e finalmente, chegou a chuva. A patroa foi depressa trancar as janelas e a porta do rancho, pois a chuva e o vento aumentavam. Relâmpagos acompanhados de fortes trovoadas chegavam a estremecer o rancho. Numa destas, o piá que estava dormindo, despertou num susto e abriu o berreiro. 

            O rancho já estava todo molhado, pelo grande número de goteiras que havia do telhado, a patroa então pegou o piá e o enrolou em uns trapos que tinha por ali e socou ele em um canto onde a água não conseguia chegar. O patrão e a patroa se mantinham ocupados em segurar as janelas e a porta,  pois o vento as sacudia  parecendo que iria entrar no rancho. Dentro do rancho reinava o medo, pela fúria do vento acompanhada de chuva e granizo. Parecia que o vento queria levar embora o rancho. A patroa lembrou-se  do que havia aprendido de seus antepassados, e em seguida abriu uma gaveta velha  e tirou uma vela de cera benta, acendeu-a e colocou-a no canto da mesa. Espalhou pelo rancho água benta e colocou alguns ramos de oliveira benta no fogo da chapa  juntamente com um pouco de sal, acompanhado de algumas rezas. Tudo isso era para  afastar os maus espíritos que estavam rodeando o rancho. Enquanto isso, o piá continuava socado em um canto do rancho. Aos poucos a fúria do vento começou a diminuir e a chuva começou a ir embora, até parecia que o pedido da patroa tinha sido atendido, e aos poucos tudo retornou ao normal, voltando a brilhar o sol e a soprar uma brisa para secar o rancho...