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Nasce um Gaudério.
Por Jatir Delazeri.
Por volta de 1948, nos topos dos morros de
Pouso Novo, um gaudério viu
nascer o sol pela primeira vez.
Começava o verão e nas primeiras horas da madrugada de uma
noite enluarada , um piá abriu um berreiro. Vindo de um parto normal,
auxiliado por uma parteira, e num rancho iluminado por candeeiros a querosene. Lá fora reinava
um silencio infinito e o céu estava bordado de estrelas. A lua estava
cheia e brilhante, até parecendo que veio para iluminar o caminho
que a parteira tinha de passar.
Por entremeio das frestas das taboas, a lua espiava para dentro
do rancho , parecia que queria ver a cara do piá. Depois de terminado
o serviço, a parteira deixou o rancho. Assim que o piá parou de
berrar, ele sentiu fome e
foi à procura da teta da patroa do rancho para dar
sua primeira mamada. Logo nos primeiros dia de vida , o piá começou
a sentir a fúria da
natureza que existia no topo daqueles morros e que aos poucos ele
deveria se acostumar. Era
início do mês de Janeiro, o calor era intenso.
Os poucos animais que o patrão possuía, estavam debaixo de
algumas árvores
ao redor do rancho. Os animais sentiam o intenso calor , e ficavam
parados nas sombras das árvores, sacudindo o rabo para afastar as
mutucas que tentavam tirar-lhes o sangue.

O patrão do rancho só tinha um cavalo, que servia como meio
de transporte e que também carregava produtos da roça para o rancho.
Tinha uma vaca que fornecia o leite e o queijo para o gasto do rancho
e também, dois bois usados para lavrar a terra descômoda e cheia
de
posterno, e
para arrastar lenha do mato para o rancho, que era usada para fazer
fogo na chapa e no forno, onde a patroa cozinhava
o pão e a batata doce. Junto ao rancho, na parte de trás havia um
puxado que servia de abrigo para os animais nos dias frios do inverno.
Neste dia de intenso calor, logo após o meio dia, o tempo
começou a se armar e logo em seguida começou a soprar um vento e
finalmente, chegou a chuva. A patroa foi depressa trancar as janelas
e a porta do rancho, pois a chuva e o vento aumentavam. Relâmpagos
acompanhados de fortes trovoadas chegavam a estremecer o rancho.
Numa destas, o piá que estava dormindo, despertou num susto e abriu
o berreiro.
O rancho já estava todo molhado,
pelo grande número de goteiras que havia do telhado, a patroa então
pegou o piá e o enrolou em uns trapos que tinha por ali e socou
ele em um canto onde a água não conseguia chegar. O patrão e a patroa
se mantinham ocupados em segurar as janelas e a porta,
pois o vento as sacudia parecendo que iria entrar no
rancho. Dentro do rancho reinava o medo, pela fúria do vento acompanhada
de chuva e granizo. Parecia que o vento queria levar embora o rancho.
A
patroa lembrou-se do
que havia aprendido de seus antepassados, e em seguida abriu uma
gaveta velha e tirou
uma vela de cera benta, acendeu-a e colocou-a no canto da mesa.
Espalhou pelo rancho água benta e colocou alguns ramos de oliveira
benta no fogo da chapa juntamente com um pouco de sal,
acompanhado de algumas rezas. Tudo isso era para
afastar os maus espíritos que estavam rodeando o rancho.
Enquanto isso, o piá continuava
socado em um canto do rancho. Aos poucos a fúria do vento começou
a diminuir e a chuva começou a ir embora, até parecia que o pedido
da patroa tinha sido atendido, e aos poucos tudo retornou ao normal,
voltando a brilhar o sol e a soprar uma brisa para secar o rancho...
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