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    Jatir Delazeri

Caminho percorrido por um Gaudério
Por: JATIR DELAZERI.

publicado no ano de 2000!

Parte 1 - Nasce um gaudério.(01-Jul-2000) Parte 7 - Coração do gaudério é flechado por uma chinoca.(01-Out-2000)
Parte 2 - O piá é desmamado.(15-Jul-2000) Parte 8 - Frustração e desespero do gaudério.(15-Out-2000)
Parte 3 - Em Relvado é civilizado.(01-Ago-2000) Parte 9 - Frustrado, deixa o pampa gaúcho.(01-Nov-2000)
Parte 4 - Desperta o amor por uma chinoca.(15-Ago-2000) Parte 10 - Frustração do gaudério na terra do tio Sam.(15-Nov-2000)
Parte 5 - O gaudério é enviado a uma cavalaria em Bagé.(01-Set-2000) Parte 11 - Flecha do gaudério atinge coração desocupado em Porto Alegre.(01-Dez-2000)
Parte 6 - Vai tentar a vida na capital.(15-Set-2000) Parte 12 - (final) - Com saudades, o gaudério funda o primeiro CTG fora do Brasil.(15-Dez-2000)

 
O piá é desmamado.

- Parte 2. 

 

            Nem tinha completado um ano de idade, o piá foi desmamado. Daí em diante passou a se alimentar de tudo que vinha pela frente, como produtos da roça, carne de galinha (a patroa criava  algumas galinhas no terreiro para uso do rancho), carne de porco (o patrão tinha alguns porcos fechados na mangueira),  e algumas frutas do mato.

            Logo nos primeiros anos de vida andava de pés descalços e começou a usar bombachas. Havia lá uma pequena igreja conhecida por capela, distante uns cinco quilômetros do rancho. De período em período eram feitas festas para arrecadar algum dinheiro que servia para a manutenção da mesma.  

            Nesta época e nesse lugar, viviam  muitos bugres e pessoas fora-da-lei. Era comum durante as festas, surgirem brigas. Nos fim das festas quase sempre existiam pessoas com corte de faca, furos de balas e até alguns mortos.

           O piá ia crescendo nesse ambiente. Nos dias das festas na capela , o patrão e a patroa compareciam e levavam junto o piá, que lá brincava com a piazada. Lá pelas tantas da tarde saía a patroa a procura do piá para ver se ele estava bem. Depois de alguma  busca, lá estava o menino junto com os companheiros, rolando na grama que havia ao lado da capela . O piá todo sujo e rodeado de moscas foi pego pela patroa, que sem perder tempo o levou para perto de um poço d'agua que ali havia,  jogou o balde, preso à corda, no poço, e puxou-o cheio de água, dando um banho rápido no piá, que trocava de bombacha e retornava à festa.

            Num destes dias de inverno que o vento e a chuva fria açoitavam esta área, o patrão e a patroa estavam sentados ao redor da chapa tomando chimarrão e comendo amendoim assado. A patroa então falou para o patrão do rancho: "temos que sair daqui para civilizar um pouco esse piá, caso contrário ele vai ser criado como nós,  sem cultura, terá estes bugres como amigos e no futuro poderá ser mais um destes homens fora-da-lei". O patrão pensou um pouco e depois concordou com a idéia.

            Assim que o inverno passou,  o patrão saiu em busca de outro lugar para viver, pois além disto, eles estavam cansados de viver nesse lugar, que seguidamente era castigado pela natureza. No retorno de uma destas procuras, falou para a patroa:"Visitei  uma vila chamada Relvado, fica a uns 30 quilômetros daqui. Gostei do lugar porque tem uma igreja grande, o padre mora ao lado, perto dela tem uma gruta onde esta a imagem de Nossa Senhora de Lurdes, e me falaram que estão para chegar algumas freiras que trabalharão na igreja ensinando as crianças a ler e escrever".  Depois de algum silêncio a patroa disse que gostaria de ir morar num lugar assim, e disse também que com a ajuda do padre, das freiras que estão para chegar, e algumas novenas na gruta, talvez o piá tivesse um bom caminho na vida.

           Alguns dias mais tarde, o patrão retornou a vila de Relvado para ver se conseguia um rancho para morar e um pedacinho de terra para trabalhar. Chegando na vila  ficou logo sabendo que havia um rancho à venda  na linha Gruta. O lugar levava esse nome porque ficava perto de uma gruta. Ele foi até o lugar para ver, e logo ao chegar gostou e nessa mesma viagem fechou o negócio e ficou somente dependendo da aprovação da patroa.  Ao retornar a Pouso Novo, falou com a patroa sobre o negócio. Ela gostou e este foi fechado definitivamente, e logo em seguida começaram os preparativos para a mudança que a tanto tempo estavam esperando...