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O piá é desmamado.
- Parte
2.
Nem tinha completado um ano de idade, o piá foi desmamado.
Daí em diante passou a se alimentar de tudo que vinha pela frente,
como produtos da roça, carne de galinha (a patroa criava
algumas galinhas no terreiro para uso do rancho), carne de
porco (o patrão tinha alguns porcos fechados na mangueira),
e algumas frutas do mato.
Logo nos primeiros anos de vida andava de pés descalços e
começou a usar bombachas. Havia lá uma pequena igreja conhecida
por capela, distante uns cinco quilômetros do rancho. De período
em período eram feitas festas para arrecadar algum dinheiro que
servia para a manutenção da mesma.
Nesta época e nesse lugar,
viviam muitos bugres e pessoas fora-da-lei. Era comum
durante as festas, surgirem brigas. Nos fim das festas quase sempre
existiam pessoas com corte de faca, furos de balas e até alguns
mortos.
O piá ia crescendo nesse ambiente.
Nos dias das festas na capela , o patrão e a patroa compareciam
e levavam junto o piá, que lá brincava com a piazada. Lá pelas tantas
da tarde saía a patroa a
procura do piá para ver se ele estava bem. Depois de alguma
busca, lá estava o menino junto com os companheiros, rolando na
grama que havia ao lado da capela . O piá todo sujo e rodeado de
moscas foi pego pela patroa, que sem perder tempo o levou para perto
de um poço d'agua que ali havia, jogou o balde, preso à corda,
no poço, e puxou-o cheio de água, dando um banho rápido no piá,
que trocava de bombacha e
retornava à festa.
Num destes dias de inverno que o vento
e a chuva fria açoitavam esta área, o patrão e a patroa estavam
sentados ao redor da chapa tomando chimarrão e comendo amendoim
assado. A patroa então falou para o patrão do rancho: "temos
que sair daqui para civilizar um pouco esse piá, caso contrário
ele vai ser criado como nós, sem cultura, terá estes bugres
como amigos e no futuro poderá ser mais um destes homens fora-da-lei".
O patrão pensou um pouco e depois concordou com a idéia.
Assim que o inverno passou, o patrão saiu em busca de outro
lugar para viver, pois além disto, eles estavam cansados de viver
nesse lugar, que seguidamente era castigado pela natureza. No retorno
de uma destas procuras, falou para a patroa:"Visitei
uma vila chamada Relvado, fica a uns 30 quilômetros daqui.
Gostei do lugar porque tem uma igreja grande, o padre mora ao lado,
perto dela tem uma gruta onde esta a imagem de Nossa Senhora de
Lurdes, e me falaram que estão para chegar algumas freiras que trabalharão
na igreja ensinando as crianças a ler e escrever".
Depois de algum silêncio a patroa disse que gostaria de ir
morar num lugar assim, e disse também que com a ajuda do padre,
das freiras que estão para chegar, e algumas novenas na gruta, talvez
o piá tivesse um bom caminho na vida.
Alguns dias mais tarde, o patrão retornou
a vila de Relvado para ver se conseguia um rancho para morar e um
pedacinho de terra para trabalhar. Chegando na vila
ficou logo sabendo que havia um rancho à venda
na linha Gruta. O lugar levava esse nome porque ficava perto
de uma gruta. Ele foi até o lugar para ver, e logo ao chegar gostou e
nessa mesma viagem fechou o
negócio e ficou somente dependendo da aprovação da patroa.
Ao retornar a Pouso Novo, falou com a patroa sobre o negócio.
Ela gostou e este foi fechado definitivamente, e logo em seguida
começaram os preparativos para a mudança que a tanto tempo estavam
esperando...
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