|
Em Relvado é civilizado.
- Parte
3.
Era início de 1955.
Chegou o momento tão esperado! O patrão contratou um pequeno caminhão,
que era o único que tinha naquele lugar, para fazer a mudança das
poucas coisas que tinha no rancho na Picada Taquari em Pouso Novo
e levar até a vila de Relvado. Depois de duas horas de viagem devido
às péssimas condições das estradas, chegaram na nova querência.
Passaram-se alguns meses,
o piá completou sete anos de idade e, como era de costume na época,
a criança nesta idade tinha que começar a ir a escola para aprender
a ler e a escrever.
O patrão então colocou
o piá na única escola que tinha no lugar. A escola era uma sala
de aula com lugares para trinta crianças. Nesta sala se ensinava
do primeiro ao quinto grau. O piá, que até então fora criado no
mato, começou a freqüentar a escola e nem sabia o que ia fazer.
Chegou então ao fim do ano, e o piá nada tinha aprendido. No último
dia de aula do ano a professora entregou para todos os alunos um
papel contendo o aproveitamento dos alunos na escola e que deveriam
levar para casa e entregar para os pais. O piá estava muito contente
pois era o último dia de aula, e ao chegar em casa entregou logo
o papel para seu pai e sua mãe. Eles olharam e não entenderam nada,
pois que então, foram falar com a professora, e ela lhes disse que
devido ao pouco aproveitamento, o piá deveria repetir o ano. Depois
de falarem com a professora entenderam que o piá era um cabeça-dura
e iria dar muito trabalho para colocar alguma coisa dentro da cabeça
dele.
Como estavam chegando
as freiras, e elas vinham para ensinar às crianças do lugar a ler
e a escrever, o patrão junto com a patroa decidiram pagar as freiras
para que elas ensinassem o piá a ler e escrever. Pensaram eles que
pagando a professora o piá poderia aprender um pouco mais do que
na escola no ano anterior. Logo nos primeiros meses de aula o piá
foi expulso da escola, pois as freiras não podiam controlar o piá,
e este logo ao chegar em casa com o papel de expulsão, foi mandado
a trabalhar na roca.
Passada uma semana,
o pai do piá foi até a escola conversar com a professora e disse:
"Na vila não tem outra escola, o piá tem que estudar, e tem
de ser aqui!", e pediu que elas o recebessem de volta na escola.
Depois de alguma reluta a professora aceitou.
Com o passar do tempo,
o piá foi melhorando, e aos poucos, também, o seu aproveitamento,
e no final do ano ele passou com notas mínimas, e foi assim até
o quinto grau. Passava com notas mínimas e era expulso do colégio
duas ou três vezes por ano.
Assim que o piá chegou
na vila de Relvado, ele deixou de usar bombachas, pois esta roupa
não era bem aceita no local, porque eram roupas que os bugres e
os "foras-da lei" usavam.
Logo nos primeiros anos de
escola, as freiras aconselharam os pais do piá para que este fosse
ensinado a ajudar o padre nos momentos da missa, e que isso poderia
ajuda-lo a melhorar o comportamento, o que os pais logo concordaram.
Então lhe foi ensinado e o piá muito gostava, só que algumas vezes
trazia algum problema para o padre, tal como chegar na sacristia
da igreja antes do padre e tomar parte do vinho que era usado na
missa.
Um dos passatempos preferidos
do piá nos fins-de-semana era assistir às corridas de cavalo em
cancha reta, que eram realizadas fora da vila todos os domingos.
Nestas corridas sempre existiam apostas em dinheiro, que geralmente
acabavam em brigas, e devido a estas brigas, alguns anos mais tarde
foi fechada a cancha de corrida de cavalos...
Gostaria de conhecer Relvado? Olha aqui:

|