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    Jatir Delazeri

Caminho percorrido por um Gaudério
Por: JATIR DELAZERI.

publicado no ano de 2000!

Parte 1 - Nasce um gaudério.(01-Jul-2000) Parte 7 - Coração do gaudério é flechado por uma chinoca.(01-Out-2000)
Parte 2 - O piá é desmamado.(15-Jul-2000) Parte 8 - Frustração e desespero do gaudério.(15-Out-2000)
Parte 3 - Em Relvado é civilizado.(01-Ago-2000) Parte 9 - Frustrado, deixa o pampa gaúcho.(01-Nov-2000)
Parte 4 - Desperta o amor por uma chinoca.(15-Ago-2000) Parte 10 - Frustração do gaudério na terra do tio Sam.(15-Nov-2000)
Parte 5 - O gaudério é enviado a uma cavalaria em Bagé.(01-Set-2000) Parte 11 - Flecha do gaudério atinge coração desocupado em Porto Alegre.(01-Dez-2000)
Parte 6 - Vai tentar a vida na capital.(15-Set-2000) Parte 12 - (final) - Com saudades, o gaudério funda o primeiro CTG fora do Brasil.(15-Dez-2000)

 
Desperta o amor por uma chinoca.

- Parte 4.

 

            Início de 1960, o piá  foi matriculado na escola, no 5o  grau. Seria o último ano de estudo , pois ele passaria a trabalhar o dia inteiro na roça. Enquanto ele estava na escola, ele ia somente à tarde para a roça. O piá iria parar de estudar, pois os seus pais não tinham dinheiro para mandá-lo estudar  em outra cidade.

            Logo nos primeiros dias de aula, o piá começou a sentir  algo estranho dentro de si quando olhava para uma menina, que era sua colega de sala de aula, era algo que ele nunca  havia sentido antes. Parecia que tinha um fogo ardendo dentro do seu peito, e todas as vezes que ele olhava para a menina ou se lembrava dela, parecia que havia colocado mais lenha  no fogo, dentro do peito. O piá começou a cuidar todos os movimentos que a menina fazia,  como o caminhar dela, o jeito de falar, a maneira de brincar, e começou a ver ela como a mais bonita de todas as outras colegas de aula , pelos  seus cabelos compridos, rosto  redondo e o corpo bonito. Como o piá era xucro e acanhado, como potro mal domado, aos poucos ele começou a  se afastar dela. Nas brincadeiras que havia nos intervalos de aula, no qual ela estava, o piá não participava. O que ele sentia por essa menina, era um segredo, ele não contava para ninguém, pois nem mesmo ele conseguia explicar o que estava acontecendo. Como na época, era obrigatório aos domingos assistir no mínimo uma missa , então o piá passou a ajudar o padre nas duas missas que havia aos domingos. Ele ajudava o padre a dar a comunhão só para poder ver a menina bem de perto, pois todos os domingos ela comungava. Por este motivo, o piá continuou a ajudar na missa até depois que ele terminou o 5o grau. Como ela nunca ficou sabendo que o piá gostava dela, com o fim das aulas o fogo que ardia dentro do peito do piá, foi se apagando, até morrer.

            A autoridade máxima na vila de Relvado, nessa época, era o padre. Ele dava ordens e o povo tinha que obedecer. O baile era proibido, pois era coisa do demônio. Os rapazes e as moças deveriam se conhecer nas festas da igreja. Todos os domingos haviam festas, se não era na igreja matriz, era nas capelas. Nesses lugares, os rapazes e as moças deveriam ir para se conhecer. Quando o rapaz fosse namorar na casa da moça, a mãe dela deveria estar sempre junto a eles, e  qualquer coisa maliciosa que acontecesse, o padre  divulgava o nome deles durante a  missa de domingo.

            As  normas da igreja eram: assistir a missa todos os domingos; confessar  e comungar no mínimo uma vez por ano; participar de todas  novenas do ano; na semana  santas não podiam fazer barulho e deveriam ir à igreja  várias vezes nesta semana.

            Num fim de ano daquela época, uma família da vila resolveu fazer um baile para comemorar  o inicio do ano novo sem a licença do padre.O baile começou perto da meia-noite. O padre ficou furioso e a meia-noite ele entrou na igreja e começou a tocar o sino com batida de agonia, ou seja, o pêndulo do sino bate somente em um lado do sino, e com isto, acordou todas as pessoas que moravam na vila e nos arredores. As batidas do sino eram ouvidas a quilômetros de distância, e todos se perguntavam quem havia morrido. O baile parou por somente alguns minutos e depois continuou. O padre tocou o sino por uma hora. Percebendo que o baile continuava, parou de tocá-lo e foi a esta casa. Entrou na sala onde todos dançavam e com o terço na mão, começou a andar e rezar. Com esse ambiente não foi possível continuar o baile. As moças e rapazes começaram a ir para  suas casas e assim terminou o baile .

            Como no dia primeiro do ano era dia santo, havia duas missas e no sermão de ambas as missas o padre divulgou o nome da família que promoveu o baile e das famílias que compareceram ao mesmo.

            Existia na vila também  um subdelegado, que era soldado da Brigada Militar e a função dele era  manter a ordem em Relvado, pois haviam muitas pessoas que bebiam em excesso, ficavam valentes e brigavam entre si. O soldado prendia  estas pessoas e as colocava no porão da casa onde ele morava, esperava passar a bebedeira e depois eram soltos, porque na época não havia julgamento para estes casos...

Esta é a famosa igreja de Relvado, aquela do padre...