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    Jatir Delazeri

Caminho percorrido por um Gaudério
Por: JATIR DELAZERI.

publicado no ano de 2000!

Parte 1 - Nasce um gaudério.(01-Jul-2000) Parte 7 - Coração do gaudério é flechado por uma chinoca.(01-Out-2000)
Parte 2 - O piá é desmamado.(15-Jul-2000) Parte 8 - Frustração e desespero do gaudério.(15-Out-2000)
Parte 3 - Em Relvado é civilizado.(01-Ago-2000) Parte 9 - Frustrado, deixa o pampa gaúcho.(01-Nov-2000)
Parte 4 - Desperta o amor por uma chinoca.(15-Ago-2000) Parte 10 - Frustração do gaudério na terra do tio Sam.(15-Nov-2000)
Parte 5 - O gaudério é enviado a uma cavalaria em Bagé.(01-Set-2000) Parte 11 - Flecha do gaudério atinge coração desocupado em Porto Alegre.(01-Dez-2000)
Parte 6 - Vai tentar a vida na capital.(15-Set-2000) Parte 12 - (final) - Com saudades, o gaudério funda o primeiro CTG fora do Brasil.(15-Dez-2000)

 
O gaudério é enviado a uma cavalaria em Bagé.

- Parte 5.

Tinha recém completado dezoito anos de idade. Os pais do jovem gaudério acharam que seria bom mandá-lo para outra cidade para continuar a "civilização" do "índio xucro". Como ele gostava muito de cavalos, um excelente lugar seria uma cavalaria, para a qual onde ele foi, e acabaria por conhecer o regime militar.

Era início de 1968. O gaudério pegou sua mala, encheu com seus pertences, colocou na garupa e embarcou no primeiro trem que ia para Bagé. Depois de várias horas de viagem chegou finalmente ao seu destino.

Já nos primeiros dias o gaudério começou a sentir a força do regime militar, mas o que ele mais sentiu falta foi a liberdade. Tudo tinha hora marcada. Levantar, comer, trabalhar e dormir. Não podia sequer escolher a roupa que ia usar, era sempre a de cor verde que era o uniforme militar. O corte de cabelo também era sempre o mesmo: rapado.

A comida era feita em grandes panelões e muitas vezes comia somente para matar a fome porque não gostava da mesma. Nunca sabia quando teria folga no trabalho e sempre tinha que obedecer às ordens de seus superiores. Inicialmente, ele foi escalado para trabalhar nas baias dos cavalos. Suas funções eram bem simples: dar comida e água aos animais, limpar as baias, e à noite ficar de plantão para cuidar dos cavalos. O jovem gaudério tinha apenas duas opções: obedecer às ordens superiores ou ir para o xadrez, conhecida por cadeia, na qual, a liberdade era limitada a alguns metros quadrados e onde veria o sol nascer quadrado. Nos primeiros tempos foi difícil, pois somente se dá o devido valor à liberdade quando se a perde.

Chegou o fim do ano, quando começam as tradicionais festividades. Na noite de Natal o gaudério estava de plantão nas baias. Os cavalos, alguns muito irrequietos, passaram a noite batendo os cascos contra o solo, e alguns outros emitindo sons que pareciam roncos, e ele, o jovem gaudério passou a noite pensando nas pessoas lá fora, festejando junto de parentes e amigos, e ele passando a noite de Natal junto a muitos cavalos.

De período em período, o 3º Regimento, 75ª Artilharia Montada, fazia marchas a cavalo onde se andavam muitos e muitos quilômetros. O regimento acampava, ficando semanas fazendo manobras de guerra. Nestas manobras, o trabalho do gaudério era operar uma estação de radiocomunicações, que servia de ligação entre as diferentes frentes de manobra.

Já havia passado mais de um ano que tinha saído de casa e ainda não havia retornado. Tinha muitas saudades da vida livre do interior, onde havia crescido. Devido a uma modificação no sistema militar do regimento, somente depois de dezoito meses, o gaudério poderia ser liberado, mas antes teria que passar por soldado raso, soldado, e por fim, soldado engajado. Pelo visto dá para perceber que ele não passou de um soldado.

Por volta de Junho de 1969 foi divulgado no boletim do regimento, que o jovem gaudério daria baixa das fileiras militares, e que, por ter sido um soldado exemplar e pelo seu bom comportamento, receberia um certificado de Honra ao Mérito, entregue pelo próprio Comandante do Regimento...