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Vai tentar a vida na capital.
- Parte
6.
Assim que deu baixa do quartel, o gaudério retornou para casa. Durante a viagem começou a relembrar, com grande saudade, dos pais, dos parentes, dos amigos e amigas, e da vida tranqüila de Relvado. Lembrou-se, com saudade, das batidas do sino da igreja, que há muito não ouvia tocar. Lembrava que às seis horas da manhã tocava a ave-maria avisando que era hora de levantar, ao meio dia tocava avisando que era hora para almoçar e às seis horas da tarde voltava a tocar para avisar que havia terminado o dia. Lembrava também que às quatro horas da tarde, nos sábados, tocavam os três sinos para avisar que havia terminado a semana e que no dia seguinte era domingo, dia santo e não se devia trabalhar, que domingos de manhã tinha duas missas e o sino era tocado três vezes em cada missa.
Ao chegar em casa foi aquela festa, muita conversa, abraços e beijos, mas logo passadas as emoções do reencontro, o jovem gaudério retornaria a vida normal que era de trabalhar na roça junto com os pais e cuidar dos animais que eram do rancho.
Fins de 1969, o jovem gaudério começou a pensar que para viver não precisaria trabalhar só na roca, e começou a pensar em ir para a cidade para arranjar trabalho, qualquer que fosse, mas entretanto, ele se lembrava que não tinha estudado, e nem profissão, e por isso seria difícil viver na cidade.
Alguns dias depois ele foi para a roça com a carreta puxada por parelha de bois para buscar algumas abóboras e um pouco de pasto para os animais, pois no dia seguinte não podia trabalhar porque seria domingo. Enquanto estava carregando a carreta, notou algumas mutucas que ali por perto estavam. Os bois agitaram-se um pouco com estas mutucas, mas o jovem gaudério não se preocupou, pois esta "agitação" dos bois era muito comum nessa época do ano. Porém os bois começaram a ficar bravos e começaram a caminhar, morro abaixo, e em seguida a correr, em direção ao rancho, e começou a cair tudo o que tinha em cima da carreta. O gaudério saiu correndo atrás, os bois corriam mais, e a carreta começou a perder alguns pedaços. Todos foram parar quando chegaram ao rancho, com a carreta toda quebrada, e o gaudério ficou decepcionado vendo o estado que ficou a carreta. No dia seguinte ele decidiu sair do rancho para tentar a vida na cidade.
Alguns dias depois, o gaudério colocou seus pertences na mala, alguns cruzeiros no bolso, se despediu da família e disse que iria para a capital tentar uma nova vida na cidade. Pegou a mala e foi até a beira da estrada por onde deveria passar o ônibus que vinha de Putinga e ia até Encantado. Quando avistou o ônibus, fez sinal para este parar e subiu como quem está decidido a não mais voltar a trabalhar na roça.
Depois de várias horas viajando de ônibus, chegou a Porto Alegre, e ao desembarcar na rodoviária, se admirava de tudo, pois nunca havia visto coisa igual. Era uma porção de gente andando pelas ruas, a altura dos prédios, a quantidade de carros que circulavam pelas ruas. Em meio a tudo isto ele começou a andar pela cidade, como uma mosca tonta, pois não tinha certeza aonde ir e nem um rumo certo. A primeira coisa que ele tinha que se preocupar era onde iria passar a noite, pois o dia estava chegando ao fim. Ao chegar a Praça da Alfândega, se aproximou de um cavalheiro que estava descansando em um dos bancos da praça e perguntou se este sabia de algum lugar para ele encontrar um quarto para dormir. O senhor pensou um pouco e disse: ali na rua Riachuelo atrás do Teatro São Pedro tem um prédio antigo e lá eles alugam quartos para pessoas solteiras. O jovem gaudério agradeceu e se dirigiu até o local indicado pelo senhor.
Ao chegar lá, falou com a pessoa encarregada de cuidar o prédio e esta disse que tinha quarto para alugar para pessoas solteiras e o preço era bem acessível. O jovem gaudério foi então ficando por ali mesmo. Pagou um mês adiantado conforme o regulamento da casa.
No dia seguinte saiu para procurar trabalho na única coisa que sabia fazer: abrir buracos. Todas as pessoas que ele encontrava abrindo buracos nas ruas ele se aproximava, perguntava se tinha trabalho e eles respondiam: não sei, tens que ir ao escritório da firma, e davam o endereço para o gaudério. Como ele não conhecia nada na cidade, ele não encontrava o endereço que lhe era dado.
Depois de vários dias de procura, ele encontrou um trabalho "avulso" em uma firma de construção, para abrir canaletas no concreto e nas paredes de alvenaria para depois instalarem a rede elétrica nos prédios. Como o gaudério mostrava muito trabalho, o encarregado da obra começou a gostar deste trabalho, então o registrou como empregado da firma, e ao mesmo tempo aconselhou-o a tirar um curso de eletricista profissional porque depois passaria a ganhar mais dinheiro, e foi isso o que o gaudério fez.
Dois anos depois surgiram vagas para eletricista profissional no Estaleiro Só. O estaleiro ficava no bairro Cristal. O gaudério se inscreveu e uma semana depois ele foi chamado para trabalhar como eletricista e passou a ganhar muito mais dinheiro. Logo nos primeiros dias de trabalho passou a gostar do novo emprego. Algumas pessoas com maior experiência na vida, disseram para o gaudério: para a pessoa progredir na vida ela tem que estudar. Então o gaudério passou a trabalhar de dia e estudar a noite pelo "Artigo 99", para concluir o ginásio e o cientifico, pois ele sonhava em um dia estudar em uma universidade.
Depois de alguns anos de estudos ele conseguiu a chegar à universidade, mas o coração do gaudério reclamava muito, pois que queria amar uma chinoca. O gaudério acusava falta de tempo, pois trabalhava de dia e estudava à noite. Seguidamente freqüentava discotecas, mas como ele era tímido e bem pouco comunicativo, lhe dificultava em se aproximar das chinocas, e com isso o coração do gaudério sofria. Na maioria das vezes em que ele ia a uma discoteca ou aos bailes de domingo a noite na Casa de Portugal, que ficava ali na avenida João Pessoa, ele passava o tempo todo sem dançar, e então, depois que terminava o baile, ia para casa frustrado por não ter conseguido nada...

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