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Coração do gaudério é flechado por uma chinoca.
- Parte
7.
O gaudério se via encurralado, pois o coração
exigia uma chinoca para amar.
Um dia ele começou
a se preocupar mais, pois o tempo ia passando e ele continuava
sozinho, como sempre esteve. Morava
em Porto Alegre, uma bonita cidade, cheia
de belas chinocas,
e ainda mais belas
ficavam quando usavam vestidos de prenda. Lembrava-se também dos
belos dias de fim de tarde, quando o sol, antes de ir descansar,
refletia sua luz no
rio Guaíba, embelezando ainda mais Porto Alegre. Nestes dias, o gaudério sentia
o peso da solidão e os anos que iam passando, e ele sentia que se
não atendesse o pedido de
seu coração iria "sobrar", pois a idade já ia avançada.

Em um daqueles bailes de domingo a noite que o jovem gaudério
freqüentava na Casa de Portugal,
assim que ele entrou no salão foi
até a copa e pediu uma bebida forte para estimular e dar mais
coragem para o vivente. Aproximou-se
do salão e escorou-se
na parede e ficou olhando
o pessoal dançar. Numa destas vasculhadas
com os olhos que ele
dava para ver se havia algo
diferente, sentiu que uma chinoca estava olhando para ele. O jovem
gaudério criou um pouco de coragem e se aproximou, meio desajeitado,
e começaram a falar. Convidou-a
para dançar e ela prontamente
aceitou. Na conversa, durante a
dança, ela disse que também era do interior e estava hospedada
na rua Riachuelo, bem perto
de onde ele havia se hospedado nos primeiros tempos em que chegou a Porto Alegre.
Tudo estava indo muito bem. Ao terminar o baile, o gaudério
acompanhou a chinoca
até o apartamento onde ela morava,
despediram-se e marcaram
um novo encontro para o meio da semana. Depois que deixou a chinoca
em seu apartamento na Riachuelo,
ele retornou para o bairro Cristal,
onde ele morava, pois continuava
a trabalhar no Estaleiro Só. O coração
do gaudério batia freneticamente
de contente, pois havia encontrado o que a muito tempo procurava.
Passou-se mais
de dois anos e tudo ia bem. A chinoca
achou então que já era tempo de apresentar o gaudério para
seus pais.
Num daqueles
belos fins-de-semana de primavera, decidirão ir visitar os pais
da chinoca, que tinha uma fazenda no interior do município de Soledade,
lá pelas bandas de Sobradinho. O gaudério
arranjou um carro para fazer a viagem,
pois lá prá
aquelas bandas não passava
ônibus. Depois de muitas horas de estrada de chão batido, acompanhado
pelo pó levantado pelas rodas do carro, chegaram
ao seu destino. Era um lugar muito calmo,
considerado ainda virgem, pois ainda não havia chegado a
luz elétrica e nem, tampouco, o asfalto. Ao chegarem foi aquela
festa, e a chinoca apresentou o gaudério a seus pais. Na frente
do rancho haviam algumas árvores
e nelas já estava "estaqueada"
uma novilha e alguns
peões estavam tirando-lhe o couro, pois ao meio-dia iam fazer "aquele" churrasco. O
jovem gaudério estava um pouco cansado pela viagem e sujo pelo pó
que haviam passado na estrada, então pediu
para tomar um banho, e a patroa, mãe da chinoca, colocou
em cima do fogão a lenha uma panela cheia de água
para aquecer e quando ficou morna
disse ao gaudério: pode se preparar
para tomar o banho. A
patroa do rancho colocou aquela água
morna em um balde de ferro galvanizado que tinha uma pequena
peneira com uma torneira. Pendurou
em um puxado que estava ao lado do rancho e deu as "instruções do sistema" para o gaudério: quando estivesse pronto para tomar banho
é só abrir a torneira que estava ao lado do balde, mas
não abrir muito, porque a
água poderia terminar antes que
ele terminasse de tomar banho. Recebidas as instruções,
o gaudério se fecha
no quartinho e faz conforme a patroa
havia falado. Para
o gaudério tudo isto não era novidade, pois em Relvado,
antes de ir para a capital, tudo era coisa
do dia-dia. Resolvido
o problema do banho, ele foi logo para a mesa,
pois que então o churrasco
já estava esperando. Na
parte da tarde foram encilhados alguns cavalos, pois o patrão do
rancho, juntamente com alguns
peões, iriam levar o gaudério para conhecer o campo e o gado
que o patrão tinha e
também para matar a
saudade que o recém chegado tinha da vida no campo.
Nas primeiras horas de domingo começou a se preparar para
retornar a Porto Alegre, com
a chinoca.
Alguns meses depois o
gaudério comprou um terreno em Porto Alegre, ali no pé do morro
Santa Teresa, para
construir um rancho, pois
ele já começava a pensar
em casar, e já
estava cansado de viver sozinho. Pensava em ter uma esposa
companheira e alguns filhos e, assim
que terminou de pagar o terreno, começou a comprar material para
construir o rancho. Ainda trabalhava no Estaleiro Só e sempre sobrava
um pouco de dinheiro para comprar o material de construção. O coração
do gaudério estava feliz, havia terminado o período
difícil em que
tinha a solidão como companheira.
A construção do rancho ia devagar
pois não sobrava muito dinheiro para comprar material. Foi de tal sorte que, para
acelerar a construção, o jovem gaudério foi a um banco e pediu dinheiro
emprestado, pensando que em poucos meses
ficaria pronta a obra. Devido a alta inflação,
o dinheiro ficou "curto"
e o gaudério teve que voltar
ao banco e pedir mais dinheiro emprestado. Ele conseguiu,
mais uma vez, o dinheiro que pediu, porque ainda continuava
trabalhando no Estaleiro Só. Com este dinheiro, mais o pouco
que sobrava do que ganhava no trabalho, iria dar para terminar o
rancho. Já tinha quatro anos
que conhecia a chinoca e
tinha planos de casar-se com ela.
Um certo dia, o coração do
gaudério começou
a sentir que algo estava acontecendo, pois a chinoca já não
era mais a mesma...
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