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    Jatir Delazeri

Caminho percorrido por um Gaudério
Por: JATIR DELAZERI.

publicado no ano de 2000!

Parte 1 - Nasce um gaudério.(01-Jul-2000) Parte 7 - Coração do gaudério é flechado por uma chinoca.(01-Out-2000)
Parte 2 - O piá é desmamado.(15-Jul-2000) Parte 8 - Frustração e desespero do gaudério.(15-Out-2000)
Parte 3 - Em Relvado é civilizado.(01-Ago-2000) Parte 9 - Frustrado, deixa o pampa gaúcho.(01-Nov-2000)
Parte 4 - Desperta o amor por uma chinoca.(15-Ago-2000) Parte 10 - Frustração do gaudério na terra do tio Sam.(15-Nov-2000)
Parte 5 - O gaudério é enviado a uma cavalaria em Bagé.(01-Set-2000) Parte 11 - Flecha do gaudério atinge coração desocupado em Porto Alegre.(01-Dez-2000)
Parte 6 - Vai tentar a vida na capital.(15-Set-2000) Parte 12 - (final) - Com saudades, o gaudério funda o primeiro CTG fora do Brasil.(15-Dez-2000)

 
Coração do gaudério é flechado por uma chinoca.

- Parte 7.

 

            O gaudério se via encurralado, pois o coração exigia uma chinoca para amar. Um dia ele  começou a se preocupar mais, pois o tempo ia passando e ele continuava  sozinho, como sempre esteve. Morava  em Porto Alegre, uma bonita cidade, cheia  de belas  chinocas, e  ainda mais belas ficavam quando usavam vestidos de prenda. Lembrava-se também dos belos dias de fim de tarde, quando o sol, antes de ir descansar, refletia sua luz no rio Guaíba, embelezando ainda mais Porto Alegre. Nestes dias, o gaudério sentia o peso da solidão e os anos que iam passando, e ele sentia que se não atendesse o pedido de seu coração iria "sobrar", pois a idade já ia avançada. 

            Em um daqueles bailes de domingo a noite que o jovem gaudério freqüentava na Casa de  Portugal, assim que ele entrou no salão foi até a copa e  pediu uma bebida forte para estimular e dar mais coragem para o vivente. Aproximou-se do  salão e escorou-se na parede e ficou olhando o pessoal dançar. Numa destas vasculhadas com os olhos que ele dava para ver se havia algo diferente, sentiu que uma chinoca estava olhando para ele. O jovem gaudério criou um pouco de coragem e se aproximou, meio desajeitado, e começaram a falar. Convidou-a para dançar e ela prontamente aceitou. Na conversa, durante a dança, ela disse que também era do interior e estava hospedada na rua Riachuelo, bem perto de onde ele havia se hospedado nos primeiros tempos em que chegou a Porto Alegre.

            Tudo estava indo muito bem. Ao terminar o baile, o gaudério acompanhou  a chinoca até o apartamento onde ela morava, despediram-se e marcaram um novo encontro para o meio da semana. Depois que deixou a chinoca em seu apartamento na Riachuelo, ele retornou para o bairro Cristal, onde ele morava, pois  continuava a trabalhar no Estaleiro Só. O coração  do gaudério batia freneticamente de contente, pois havia encontrado o que a muito tempo procurava. Passou-se  mais de dois anos  e tudo ia bem. A chinoca  achou então que já era tempo de apresentar o gaudério para seus pais.

            Num  daqueles belos fins-de-semana de primavera, decidirão ir visitar os pais da chinoca, que tinha uma fazenda no interior do município de Soledade, lá pelas bandas de Sobradinho. O gaudério  arranjou um carro para fazer a viagem,  pois lá  prá aquelas bandas não passava ônibus. Depois de muitas horas de estrada de chão batido, acompanhado  pelo pó levantado pelas rodas do carro,  chegaram  ao seu destino. Era um lugar muito calmo,  considerado ainda virgem, pois ainda não havia chegado a luz elétrica e nem, tampouco, o asfalto. Ao chegarem foi aquela festa, e a chinoca apresentou o gaudério a seus pais. Na frente do rancho haviam algumas árvores e nelas já estava  "estaqueada" uma novilha e alguns peões estavam tirando-lhe o couro, pois ao meio-dia iam fazer "aquele" churrasco. O jovem gaudério estava um pouco cansado pela viagem e sujo pelo pó  que haviam passado na estrada, então pediu  para  tomar um banho, e a patroa, mãe da chinoca, colocou em cima do fogão a lenha uma panela cheia de água para aquecer e quando ficou morna  disse ao gaudério: pode se preparar para tomar o banho. A patroa do rancho colocou aquela água  morna em um balde de ferro galvanizado que tinha uma pequena  peneira com uma torneira. Pendurou em um puxado que estava ao lado do rancho e deu as "instruções do sistema" para o gaudério: quando estivesse pronto para tomar banho é só abrir a torneira que estava ao lado do balde, mas  não abrir muito, porque a água poderia terminar antes que ele terminasse de tomar banho. Recebidas as instruções, o gaudério se fecha no quartinho e faz conforme a patroa havia falado. Para o gaudério tudo isto não era novidade, pois em Relvado, antes de ir para a capital, tudo era coisa do dia-dia. Resolvido o problema do banho, ele foi logo para a mesa,  pois que então o churrasco já estava esperando. Na parte da tarde foram encilhados alguns cavalos, pois o patrão do rancho, juntamente com alguns peões, iriam levar o gaudério para conhecer o campo e o gado que o patrão tinha e também  para matar a saudade que o recém chegado tinha da vida no campo. Nas primeiras horas de domingo começou a se preparar para retornar a Porto Alegre, com a chinoca.

            Alguns meses depois  o gaudério comprou um terreno em Porto Alegre,  ali  no pé do morro Santa Teresa,  para construir um rancho, pois ele já começava a pensar em casar, e estava cansado de viver sozinho. Pensava em ter uma esposa companheira e alguns filhos e, assim que terminou de pagar o terreno, começou a comprar material para construir o rancho. Ainda trabalhava no Estaleiro Só e sempre sobrava um pouco de dinheiro para comprar o material de construção. O coração do gaudério estava feliz, havia terminado o período  difícil em  que tinha a solidão como companheira.

            A construção do rancho ia devagar pois não sobrava muito dinheiro para comprar material. Foi de tal sorte que, para acelerar a construção, o jovem gaudério foi a um banco e pediu dinheiro emprestado, pensando que em poucos meses ficaria pronta a obra. Devido a alta inflação, o dinheiro ficou "curto" e o gaudério teve que voltar ao banco e pedir mais dinheiro emprestado. Ele conseguiu, mais uma vez, o dinheiro que pediu, porque ainda continuava  trabalhando no Estaleiro Só. Com este dinheiro, mais o pouco que sobrava do que ganhava no trabalho, iria dar para terminar o rancho. Já tinha quatro anos que conhecia a chinoca e tinha planos de casar-se com ela.

            Um certo dia, o coração do gaudério começou a sentir que algo estava acontecendo, pois a chinoca já não era mais a mesma...